Significado da Fantasia dos Casais de Mestre Sala e Porta Bandeira do Acadêmicos do Salgueiro 2025

Por Vitória de Moraes

A magia do carnaval acontece quando vemos um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira evoluir sua dança sob nossos olhos.

Quando é visto que um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira está bem vestido defendendo seu pavilhão, sendo ele Primeiro, Segundo ou Terceiro Casal, entendemos que de fato, essa magia nos tocou e entrou dentro de nós.

Retornamos a Série de Significados de Fantasias dos Casais de Mestre Sala e Porta Bandeira do Grupo Especial do Rio de Janeiro.

Como dito na série dos casais da Série Ouro, todos os casais que passaram pelo o Grupo Especial vieram muito bem vestidos, o que mostrou o cuidado e o bom grado que os carnavalescos das doze escolas do grupo tiveram com seus casais, mostrando a real importância que duas pessoas tem dentro de uma escola de samba: a importância de empulhar um pavilhão que representa uma nação e guarda histórias importântíssima para um grupo específico. 

Veja a seguir o enredo, o quadro de casais e o significado das fantasias dos casais da segunda escola a desfilar no Sambódromo da Marquês de Sapucaí na Segunda noite de desfiles do Grupo Especial:

O G.R.E.S Acadêmicos do Salgueiro foi a terceira escola a desfilar na segunda feira de carnaval, no dia 3 de março de 2025. A Vermelha e Branca do Andaraí veio com o enredo Salgueiro de Corpo Fechado, desenvolvido pelo carnavalesco Jorge Silveira que falava sobre os rituais espirituais de fechamento de corpo realizados por diversas culturas espalhadas pelo Brasil.

O quadro de Casais da escola era formado por três casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, sendo o primeiro formado pelos experientes Sidclei Santos e Marcella Alves, o Segundo formado por Leonardo Moreira e Bárbara Moura e o terceiro formado por Leonam Santos e Beatriz Paula.

Primeiro Casal: Sidclei Santos e Marcella Alves
Nome do Figurino do Primeiro Casal: De Corpo Fechado 
Criação do Figurino: Jorge Silveira
Confecção: Fernando Magalhães
Sidclei e Marcella: Icônico Casal do Acadêmicos do Salgueiro | Foto: Nobres Casais
Significado do Figurino:
Elevando o pavilhão, o primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da nossa escola, Marcella Alves e Sidclei Santos, é o corpo que guarda o Salgueiro. Em um corpo armadura simbolizam a proteção da alma salgueirense, ou o que quer que possamos chamar com esse nome, contra as energias negativas. A dupla representa o poder de imantar e resguardar nosso bem mais precioso. A indumentária traz ainda assentamentos individuais para Xangô e Iansã, dois orixás guerreiros, dando força para a narrativa da criação de uma fé, que protege e nutre no sujeito o desejo para a realização de seus objetivos, enfrentando os percalços e os inimigos. Marcella e Sidclei formam, portanto, o corpo que lembra; o corpo que guarda. O corpo fechado.

Segundo Casal: Leonardo Moreira e Bárbara Moura
Nome do Figurino do Segundo Casal: Manto Sagrado do Sertão
Criação do Figurino: Jorge Silveira
Confecção: Fernando Magalhães
Leonardo e Beatriz - Segundo Casal do Salgueiro | Foto: Nobres Casais
Significado do Figurino:
A religiosidade do cangaço aglutinou muitos elementos de um catolicismo popular do nordeste brasileiro.
Entre os signos de origem cristã cultuados pelos bandoleiros se destaca a fé em Nossa Senhora, a mãe de Cristo, que possui uma enorme legião de fieis, sendo venerada e procurada para diversas promessas. Os cangaceiros possuíam uma devoção especial com Maria, geralmente com orações e rezas escritas em seus cadernos solicitando à Virgem todo tipo de proteção. Sob o manto de Nossa Senhora, o nosso segundo casal guarda nosso pavilhão com toda a proteção divina.
Seus guardiões representam o árido e perigoso sertão nordestino, no qual era preciso vencer a morte em meio a seca e escassez de alimentos. Era preciso ter o corpo bem guardado para sobreviver em território tão hostil.

Terceiro Casal: Leonam Santos e Beatriz Paula
Nome do Figurino do Terceiro Casal: Pomba Gira Xíca da Silva e Exu Zumbi
Criação do Figurino: Jorge Silveira
Confecção: Fernando Magalhães
Leonam e Beatriz - Terceiro Casal da Salgueiro | Foto: Nobres Casais

 Significado do Figurino:

Na umbanda, nossos ancestrais se tornam entidades. Nos cultos da religião, são incorporados espíritos desencarnados que viraram conselheiros espirituais e dão consulta no corpo de médiuns. Buscando a proteção necessária, nosso terceiro casal se torna “cavalo” de duas entidades da cultura brasileira que tem forte afinidade com a energia dos Exus e das encruzilhadas. E, principalmente do Salgueiro, já que ambos são importantes enredos da alvirrubra que alcançaram o campeonato.

Para o escritor Alberto Mussa, no conto “A cabeça de Zumbi”, há uma profunda ligação entre o líder do Quilombo do Palmares e o orixá mensageiro. Hoje um herói nacional, Zumbi ainda não era tão conhecido quando foi enredo do Salgueiro em 1960, com assinatura dos carnavalescos Fernando Pamplona, Arlindo Rodrigues e Newton Sá. Outra personagem histórica que habita o imaginário social e também teve sua história cantada de maneira pioneira foi Xica da Silva, a negra que virou nobre em Diamantina. Em sua dissertação de mestrado, o historiador da arte Leonardo Antan aponta similaridades entre o imaginário da personagem com a energia da falange das pomba-giras, demonstrando como a ex-escravizada se incorporou no corpo de figuras como Isabel Valença, eterna destaque da Academia.

Com o axé plantado em nossos cortejos, ambos viraram divindades do nosso terreiro, com a missão de abrir caminhos e nos proteger. O nosso desfile é mais uma das encruzilhadas onde baixam, acompanhados por guardiões que saúdam nossos ancestrais encantados. Laroyê!

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