Os casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira ocupam um lugar central no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Entre os nove quesitos avaliados no Carnaval carioca, este é considerado o de maior responsabilidade, já que apenas duas pessoas são encarregadas de defender até 40 pontos, representando o pavilhão, a tradição e a história de toda uma agremiação.
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| Vinícius Antunes após a queda de Jéssica Ramos no desfile da Unidos de Padre Miguel em 2017 | Foto: Gabriel Monteiro |
Mais do que um quesito técnico, o desempenho do casal sintetiza valores fundamentais do samba, como respeito, elegância, sintonia e identidade. Por isso, é também o quesito que mais desperta curiosidade e atenção, tanto entre sambistas quanto entre o público que acompanha os desfiles na Marquês de Sapucaí, seja presencialmente ou pela televisão.
A dança do Mestre-Sala e da Porta-Bandeira carrega séculos de tradição e simbolismo, sendo um dos momentos mais aguardados de cada apresentação.
A seguir, reunimos curiosidades que ajudam a compreender a riqueza e a importância desse quesito:
1. A dança dos casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira surgiu nos ranchos carnavalescos, muito antes da criação das escolas de samba, e era bastante diferente do formato que conhecemos atualmente. O Rei de Ouros, primeiro rancho carnavalesco, foi fundado em 1893 por Hilário Jovino Ferreira, figura fundamental na organização do carnaval carioca.
2. O julgamento do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira não existia até o carnaval de 1937. A partir de 1938, o quesito passou a ser avaliado, porém considerando apenas a indumentária. Somente em 1958 a dança do casal foi incorporada ao julgamento. Atualmente, as notas variam de 9 a 10, levando em conta a harmonia do casal, o cortejo do Mestre-Sala e a condução do pavilhão pela Porta-Bandeira. Há penalização apenas em caso de queda de qualquer parte da fantasia, mesmo que acidental.
3. Mocinha, lendária Porta-Bandeira da Estação Primeira de Mangueira, e Lucinha Nobre, que estreou no carnaval pela Mocidade Independente de Padre Miguel, foram as únicas Porta-Bandeiras a conquistarem o Estandarte de Ouro atuando como Segunda Porta-Bandeira. Mocinha venceu em 1980 e Lucinha em 1993.
4. Neide, histórica Porta-Bandeira que atuou por 26 anos na Estação Primeira de Mangueira, é a única Porta-Bandeira da história do Carnaval a conquistar cinco Estandartes de Ouro consecutivos, entre 1972 e 1976, um feito jamais repetido.
5. Mocinha segue sendo a Porta-Bandeira que atuou por mais tempo em uma mesma escola de samba. Somando suas atuações como Segunda e Primeira Porta-Bandeira, foram 36 anos defendendo a Mangueira.
6. A Porta-Bandeira Vilma Nascimento, conhecida como o “Cisne da Passarela”, recebeu esse apelido do jornalista Valdinar Ranulfo, em referência à sua elegância, leveza e postura ao dançar.
7. Vilma Nascimento também foi responsável por criar o talabarte de ombro. Antes dessa inovação, o mastro do pavilhão era apoiado na cintura, o que fazia com que muitas Porta-Bandeiras deixassem os desfiles com ferimentos e sangramentos.
8. Nos carnavais de 1980 e 1981, o quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira não foi julgado. O julgamento retornou em 1982, valendo dez pontos. Em 1990, foi implantado um sistema de peso nas notas, aplicado aos quesitos Comissão de Frente e Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Cada quesito passou a contar com três julgadores, sendo descartada a menor nota. O somatório das duas restantes era multiplicado pelo peso: peso dois para Mestre-Sala e Porta-Bandeira e Comissão de Frente, e peso três para os demais quesitos.
9. No início do julgamento que passou a considerar dança e indumentária, em 1958, havia apenas uma julgadora no quesito: Elba Nogueira. As notas variavam de 0 a 10, e ela também era responsável por avaliar, de forma conjunta, os quesitos Conjunto, Evolução e Riqueza, além da Comissão de Frente.
10. Claudinho Silva e Selminha Sorriso formam o casal com mais tempo de atividade conjunta no Carnaval do Rio de Janeiro. Dançam juntos desde 1992, quando estrearam pelo Estácio de Sá, onde permaneceram até 1995. Desde 1996, defendem ininterruptamente a Beija-Flor de Nilópolis.
11. Beatriz Badejo é a julgadora que mais vezes atuou na Marquês de Sapucaí nos últimos 40 anos. Sua estreia como jurada do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira ocorreu em 1989. Conhecida como o “carrasco dos casais”, atuou entre 1989 e 1991, afastou-se por dez anos e retornou em 2002, permanecendo no julgamento até 2020, totalizando 19 anos consecutivos em sua segunda fase.
12.A quantidade de julgadores do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira variou ao longo dos 40 anos do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, acompanhando mudanças nos regulamentos e nos modelos de julgamento do Carnaval carioca.
No primeiro ano do Sambódromo, em 1984, o quesito contava com dois julgadores por dia, que se alternavam entre as noites de desfile. Esse formato permaneceu até 1986. Em 1987 e 1988, o número foi ampliado para quatro julgadores por quesito, mantendo-se os mesmos avaliadores nos dois dias de apresentação.
Entre 1989 e 1994, houve uma redução para três julgadores, sem que fosse apresentada, à época, uma justificativa oficial para essa mudança. Nos carnavais de 1995 e 1996, o quadro foi ampliado para cinco julgadores por quesito, passando a ser descartadas a maior e a menor nota, como forma de equilibrar as avaliações.
Em 1997, ocorreu nova redução, retornando a quatro julgadores. Já em 1998, houve um novo aumento, com cinco avaliadores. No carnaval de 1999, o número voltou a cair para três julgadores, configuração que permaneceu até 2001.
De 2002 até 2009, o quesito voltou a contar com quatro julgadores. Nos anos de 2010 e 2011, houve novo aumento para cinco julgadores por quesito. Entre 2012 e 2019, o número foi novamente estabilizado em quatro julgadores. De 2020 a 2022, ocorreu mais um aumento para cinco avaliadores e a partir de 2023, o quesito passou novamente a ser julgado por quatro julgadores, formato que segue vigente.
Julgadores por ano:
2 julgadores: 1984 à 1986;
3 julgadores: 1989 à 1994 e 1999 à 2001;
4 julgadores: 1987, 1988, 1997, de 2002 à 2009, de 2012 à 2019 e de 2023 até os dias atuais.
5 julgadores: 1995, 1996, 1998, 2010, 2011, 2020 e 2022.
13. O tempo de apresentação de um primeiro casal diante da cabine de julgamento varia de dupla para dupla. Em média, a dança dura até 2 minutos e 30 segundos, o equivalente a uma passada completa de um samba-enredo. Cabe ao casal decidir se utiliza todo esse tempo ou se opta por uma apresentação mais curta.
14. Claudinho Silva e Julinho Nascimento são os Mestres-Salas com mais tempo de atividade no Carnaval carioca. Ambos estrearam em 1986, quando tinham 13 e 12 anos, respectivamente. No próximo carnaval, os dois completarão 39 anos de atuação no Sambódromo da Marquês de Sapucaí.
15. A Escola de Mestre-Sala, Porta-Bandeira e Porta-Estandarte Manoel Dionísio é a primeira instituição do Brasil dedicada exclusivamente ao ensino da dança do Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Fundada em 17 de julho de 1990, a escola completou 35 anos em 2025.
16. Lucinha Nobre é a primeira Porta-Bandeira do Carnaval carioca a completar 40 anos de desfiles na Marquês de Sapucaí. Sua estreia ocorreu em 1984, pela escola mirim Alegria da Passarela, agremiação que deu origem ao Aprendizes do Salgueiro, no ano de inauguração do Sambódromo. Em 2024, a Porta-Bandeira defendeu as cores da Unidos da Tijuca.
17. Ao longo dos anos, a quantidade de escolas que participaram do Desfile das Campeãs variou. Houve edições com apenas uma escola e outras com duas, três ou mais agremiações:
Quantidade de escolas no Desfile das Campeãs:
1 escola: 1988
2 escolas: 1985
3 escolas: 1986
4 escolas: 1987
5 escolas: 1989 à 1993 e de 1996 à 2001
6 escolas: 1994, 1995 e de 2002 até os dias atuais
18. De 1984 a 2003, não havia sorteio para a ordem de leitura dos quesitos durante a apuração. Com isso, o quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira permaneceu por 19 anos consecutivos como o primeiro a ter suas notas lidas.
19. Ao longo dos 42 anos do Sambódromo, apenas uma vez o quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira foi utilizado como primeiro critério de desempate entre escolas com pontuação igual. O fato ocorreu no carnaval de 2009.
20. O compositor Igor Leal, proprietário da tradicional loja de artigos de samba D’ Samba, também atuou como Mestre-Sala, com passagens por escolas como Arranco do Engenho de Dentro e Vizinha Faladeira.
21. Claudinho Silva e Selminha Sorriso formam o casal que há mais tempo defende a Beija-Flor de Nilópolis, atuando juntos no quesito desde 1996, de forma ininterrupta.
22. Rute Alves é a primeira Porta-Bandeira da Era Moderna a estampar a capa do álbum oficial em CD do Grupo Especial do Carnaval do Rio de Janeiro. O feito já havia ocorrido anteriormente, em 1985, quando Mocinha, então Primeira Porta-Bandeira da Estação Primeira de Mangueira, estampou a capa ainda no formato LP.
23. O primeiro e único casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira do Grupo Especial a estampar a capa do LP oficial do carnaval foi Tiãozinho e Patrícia, primeiro casal da Caprichosos de Pilares, no ano de 1986.
24. Squel Jorgea é a primeira e única Porta-Bandeira a defender o primeiro pavilhão das duas maiores escolas do carnaval carioca e, possivelmente, do Brasil: Estação Primeira de Mangueira e Portela.
25. Dalmo José foi o criador da primeira ala de Casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, implantada na Estação Primeira de Mangueira. Na mesma escola, também idealizou a primeira escola de formação de casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da história do Carnaval, ainda que vinculada a uma escola de samba, marco fundamental na organização e no ensino desse quesito.
26. Marcella Alves e Cintya Santos são as únicas Porta-Bandeiras a assumirem o primeiro pavilhão da Estação Primeira de Mangueira sem vínculo prévio com a escola. As Porta-Bandeiras que as antecederam tinham fortes ligações com a agremiação, seja por terem sido criadas na comunidade ou por integrarem famílias historicamente ligadas à escola.
27. No Carnaval moderno, houve duas ocasiões em que a Primeira Porta-Bandeira ou o primeiro casal precisou ser substituído durante o desfile ou poucos minutos antes da apresentação. A primeira ocorreu em 2013, na então Série A (atual Série Ouro), quando a fantasia do primeiro casal da Unidos do Jacarezinho, Pedro Gabriel e Raessa Alves, não chegou a tempo para o desfile, fazendo com que o segundo casal, Roberto Vinícius e Tamara Santos, fosse o avaliado como primeiro casa pelos jurados.
A segunda situação aconteceu em 2017, no mesmo grupo, quando Jéssica Ferreira, então Primeira Porta-Bandeira da Unidos de Padre Miguel, sofreu uma queda durante o segundo módulo de julgamento, torceu o joelho e precisou ser substituída por Cássia Maria, segunda Porta-Bandeira da escola.
