Entre a técnica e o preconceito: o debate sobre etarismo no segmento de Mestre-Sala e Porta-Bandeira

No início de 2026, durante o ensaio técnico da União de Maricá na Marquês de Sapucaí, o então primeiro casal da agremiação, Fabrício Pires e Giovanna Justo, realizou mais uma apresentação como defensores do primeiro pavilhão da escola. Aquele seria também o último carnaval de ambos pela agremiação maricaense.

Na ocasião, Giovanna Justo realizou um procedimento tradicional entre muitas porta-bandeiras antes de entrar na pista: molhar levemente o pavilhão. A prática, amplamente conhecida no segmento, ajuda a dar mais peso ao tecido e reduzir os efeitos do vento, diminuindo as chances de enrolamento do pavilhão durante a apresentação.

Fabricio Pires e Giovanna Justo, então primeiro casal da União de Maricá em 2026 | Foto: Alexandre Macieira

Após a divulgação de vídeos do ensaio nas redes sociais, especialmente no Instagram e no YouTube, diversos comentários passaram a circular questionando a atitude da porta-bandeira. Muitas das críticas partiram de pessoas que não conhecem as especificidades do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira e desconhecem tradições e técnicas amplamente utilizadas pelos defensores de pavilhão.

Entretanto, entre os comentários, também surgiram manifestações de caráter etarista. As observações não se limitaram ao procedimento técnico realizado, mas direcionaram críticas à idade dos componentes do casal, reforçando estereótipos que frequentemente afetam artistas que permanecem em atividade por longos períodos.

O episódio levanta uma discussão importante para o universo do carnaval: até que ponto a experiência acumulada ao longo dos anos é valorizada? Em um segmento em que a técnica, a maturidade artística e o domínio da dança são construídos ao longo de décadas, a idade deveria ser encarada como um fator limitador ou como parte do patrimônio cultural representado pelos defensores de pavilhão?

A trajetória de mestres-salas e porta-bandeiras demonstra que a longevidade é uma das marcas do segmento. Muitos permanecem ativos por anos, enquanto outros seguem contribuindo como professores, coordenadores e formadores de novas gerações. Mais do que uma questão individual, o debate sobre envelhecimento e etarismo no carnaval envolve o reconhecimento da experiência, da memória e do legado daqueles que ajudaram a construir a história da dança do pavilhão.

Casos como o ocorrido após o ensaio técnico da União de Maricá evidenciam a necessidade de ampliar o conhecimento do público sobre as particularidades do quesito Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Ao mesmo tempo, reforçam a importância de valorizar profissionais cuja dedicação ao pavilhão ultrapassa o tempo e permanece como parte fundamental da cultura das escolas de samba.

Vitória M Cordeiro

Jornalista Especialista em Jornalismo Digital e Multiplataforma, Graduanda em Publicidade e Propaganda (6/8), fundadora do Observatório dos Casais. Viciada em filmes de gostos duvidosos e em séries curtas.

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