Lins Imperial divulga sinopse do enredo sobre Hilário Jovino para o Carnaval 2027

A Lins Imperial divulgou nesta segunda-feira (8) a sinopse do enredo "LALÚ: Um Coroado na Folia", que será desenvolvido para o Carnaval 2027. A obra homenageia Hilário Jovino Ferreira, personagem fundamental da cultura popular carioca e reconhecido como o criador da tradição do mestre-sala e porta-bandeira.

De autoria de Arnaldo Roque, com revisão de Matheus Pranto, a sinopse foi apresentada aos compositores da escola e marca o início de uma nova etapa rumo ao desfile do próximo ano. O enredo será desenvolvido pelos carnavalescos Agnaldo Corrêa e Lucas Abelha.

Ao escolher Hilário Jovino como tema, a Lins Imperial lança luz sobre um dos nomes mais importantes da história do carnaval brasileiro. Fundador de ranchos carnavalescos e defensor das manifestações culturais de matriz africana, Hilário ajudou a construir parte significativa da identidade que hoje caracteriza os desfiles das escolas de samba.

Para o universo dos casais de mestre-sala e porta-bandeira, a homenagem possui um significado ainda mais especial. Seu legado atravessa gerações e permanece vivo na dança, na elegância e na tradição que fazem do quesito um dos símbolos máximos do carnaval.

Com a divulgação da sinopse, a verde e rosa do Lins convida compositores, segmentos e apaixonados pelo samba a mergulharem na trajetória de um personagem cuja história se confunde com a própria história do carnaval carioca.

Confira a seguir a sinopse completa do enredo "LALÚ: Um Coroado na Folia".

Onde começa um caminho? No primeiro passo ou naquilo que já se traz nos pés? No Velho Pernambuco, do berço ao porto, nele, o destino. Fui chão de outras terras, bem ali, onde o mundo se organizava em cortejo: entre reis e rainhas, entre cantos e passos marcados, faziam-se presentes as memórias do passado. Não como lembrança, mas como força viva que conduzia cada gesto. Era o maracatu que ensinava: no estandarte, a direção; na calunga, o espírito; nas alfaias, o pulso que guiava o corpo. A experiência do território se fundia à minha. Tudo falava. Tudo tinha lugar. Tudo tinha sentido.

Um dia, bradei Adeus — Estrela Brilhante. Adeus — Nação Elefante. E carregado das memórias do meu velho Pernambuco, parti. Encarando as águas frente a frente, fui também onda. Mar. Travessias. Transformação. De uma margem a outra, o mundo se revirava, e eu com ele. Fui criado baiano por Salvador. Na Bahia de todos os caminhos, mais uma vez, o mundo se desenhava em movimento.

Ainda moço, conheci o estaleiro e, na lida em que o chão se firmava sob os pés, aprendi mais. que o trabalho. Aprendi o valor da organização coletiva, do tempo partilhado e da coordenação. O fazer pedia medida, ritmo e acordo. Mas era na rua que a vida se expandia. Entre tabuleiros e ganhadeiras, vi de perto as nossas grandes lás organizando a circularidade da vida, o sustento e a presença pública do gesto de liderança. Com elas, compreendi que estar na rua era também saber conduzir, negociar e permanecer.

Fui me refazendo em outros ritmos.

Todo janeiro, os ranchos de reis saíam em desfile, com papéis e funções em uma sequência que se encadeava em narrativa. Mais que ver, aprendi a ler o movimento e os espaços de sentido: de cada gesto, uma função; de cada passo, um lugar no todo. Nas veredas que se abriram, o conhecimento seguia em ritmo e canto. Das chulas do Recôncavo às rodas que se faziam na terra batida, a palavra se dizia em improviso; da capoeira às macumbas, dos sambas às festas, soube o jogo, o desvio e a resposta. Sem saber, já trazia em mim tudo aquilo que ainda pisaria em outro chão. Encruzilhada. E, novamente, travessia. Parti. Da Bahia, deixava o estaleiro que me viu chegar e, junto a um grupo de malungus, fui em busca de novos rumos na Baía de Guanabara.

Atravessei mais uma vez o mar.

Aportei em julho de 1892. Do alto da Pedra do Sal, olhos atentos avistavam os navios que se achegavam ao Rio Antigo. Lá de baixo, no cais, olhando pra cima, percebi o sinal: uma bandeira branca, marca de Oxalá, indicando a presença de gente amiga. No alto do morro, as casas das tias. Ali, toda aquela gente que chegava era acolhida, onde se oferecia abrigo, comida e descanso, até que cada um pudesse se aprumar. Foi de frente para o mar que essa gente preta, preta como a terra, assentou a própria história. Diante dos olhos de lemanjá, ergueu-se a pequena África. No Rio, um pedaço baiano.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

Mala à cabeça, parti morro afora e busquei abrigo com o baiano Miguel Pequeno, a poucos metros dali, no beco João Inácio. Em tempos em que o corpo preto era vigiado e o samba, suspeito, precisei proteger a mim e aos meus... Comprei patente, fiz-me tenente, e mais tarde, capitão da Guarda Nacional. Não por vaidade, mas por estratégia: uma forma de abrir passagem e de garantir presença. Consegui. Criei meios de interceder para manter vivo o verbo da roda onde queriam silêncio. E assim, fui criando laço, firmando nome. Ainda rapaz, assumi lugar entre a minha gente e, no terreiro de João Alabá, um dos mais respeitados da cidade fizeram-me ogā. Lalú de Ouro.

Nos fundos da Barão de São Félix, o tempo era outro. Batuque e reza se encontravam, temporalidade e corpo se misturavam. Tinha kizomba, tinha fundamento. Tinha o som —  sempre o som — dos tambores atravessando noites a fio. Não cessava. Do couro batido ao sopro que rasgava o ar, da palma que marcava ao coro que respondia. Donga, João da Baiana, Pixinguinha... Era a música um modo de existir, fazendo da rua um corpo sonoro em movimento.

No pedaço que também era de Ciata, o canto ganhou forma de cortejo, e os becos se vestiram de alegria. No verso e improviso, fui fazendo da voz caminho e das vielas poesia, dizendo também o que nem sempre queriam ouvir. Dei meus primeiros passos nesse modo de expressão que, logo, tomaria forma e nome. Anos depois, já afastado de antigos companheiros... Nesse tempo, a história se fez. Foi ali que a brincadeira virou legado — e eu mesmo tratei de contar como foi:

"Em 6 de janeiro de 1893, estava eu no botequim do 'Paraíso', na rua Larga de São Joaquim (hoje Marechal Floriano Peixoto), entre as ruas da Imperatriz e Regente, em companhia de vários baianos que costumeiramente ali se reuniam, quando lembrei-me da festa dos Três Reis Magos que na Bahia se comemorava naquele dia. Estavam presentes o Luiz de França, o Avelino Pedro de Alcântara, o João Câncio Vieira da Silva, e eu propus então a fundação de um rancho. Passando a ideia em julgado, ali mesmo eu dei o nome de "Rei de Ouro"! Na mesma hora, no armarinho de um turco fronteiro ao botequim, comprei meio metro de pano verde e meio metro de pano amarelo e fiz um estandarte no estilo da Bahia, para os ensaios. Ninguém mais descansou. O pessoal saiu avisando que à noite havia 'um chá... dançante' em minha casa. (...) Às tantas da noite reuni o pessoal e disse qual o fim daquela brincadeira e então ficou definitivamente fundado o rancho, o primeiro rancho carioca. (...) Nunca se tinha visto aquilo, aqui no Rio: porta-bandeira, porta-machado, batedores."

E de tudo isso eu fui precursor! No desenrolar dos cortejos, a elegância se fez presença, em meio a giros, mesuras e passos marcados. O corpo aprendia a cortejar a bandeira e a sustentar o rito da apresentação. Assim foi. No terceiro ano, fundei o Rosa Branca. No ano seguinte, fiz nascer o Botão de Rosa. Mais adiante, em 1899, dei forma ao rancho A Jardineira, que já no carnaval seguinte saiu às ruas, levando adiante o modo novo de brincar que a gente vinha fazendo crescer. Os ranchos davam novos sentidos à brincadeira, em que o riso, o gesto e o jogo do corpo diziam mais do que parecia. E foi assim que erguemos a nossa glória, com disciplina, beleza e invenção. Fizemos da avenida um palco, onde em cada estandarte levantado, a revelação da memória viva de uma história que veio antes de nós.

E eu, Rei. Coroado na Folia.

O sagrado e a matéria se encruzilhavam, a cidade aprendia outro compasso. Muita coisa ganhava caminho. Gente chegava, gente se formava, gente saía dali pronta. Foi nesse território que muitos nomes se fizeram e, hoje, são herdeiros de um tempo que não se perdeu, mas se espiralou. Cada qual à sua maneira, levando adiante o que ali se gestava: o samba, o cortejo, a palavra, o corpo e a rua. Nosso lugar de criação e reinvenção. E o que se firmava não ficava-se encantava. Espalhava-se em gesto, em canto, em forma de ser no mundo. Era passagem. O que nascia como experiência, seguia adiante como discurso.

Dali se fez Heitor dos Prazeres, herdeiro e guardião de memórias desenhadas no samba e na vida. Traço, ritmo e roda se encontravam como forma de narrar um tempo que seguia pulsando. Nessa mesma cadência, Ismael Silva fez do ritmo identidade, enquanto o professor Paulo da Portela transformou organização em escola.

Mais adiante, o chão seguiu vivo em outras vozes. O tempo seguiu seu curso, mas não rompeu o caminho. Em outras gerações, o fazer se reinventou, e, na avenida, ganhou nova forma de condução. Foi assim que Laíla fez do desfile linguagem ao (re)organizar o espetáculo sem romper com a raiz, enquanto o griô João Banana sustentou, na palavra e na presença, a continuidade do que ali se

firmava, mantendo viva a chama de um fazer que não se encerra, mas se renova.

E se tantos caminhos se abriram, foi porque antes alguém ensinou a atravessar. No meio de todos eles, sigo eu. Não como começo. Como fundamento. O passado se levanta no presente e, na Lins Imperial, há de ser eu e nós, chão de muitos, canto de todos. Caminho que se reinscreve na avenida e no povo, como prática, como memória e como continuidade.

Eu, pra sempre, Rei. Coroado na Folia!

Vitória M Cordeiro

Jornalista Especialista em Jornalismo Digital e Multiplataforma, Graduanda em Publicidade e Propaganda (6/8), fundadora do Observatório dos Casais. Viciada em filmes de gostos duvidosos e em séries curtas.

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