Muito provavelmente você já viu essa imagem de diversas formas, na TV, na internet, em inúmeros espaços, justamente por sua força como símbolo de representatividade e ancestralidade.
| Squel Jorgea se tornou símbolo do carnaval de 2016 e lembrança do carnaval recente | Foto: Widger Frota |
Em 2016, Squel Jorgea, então primeira porta-bandeira da Estação Primeira de Mangueira, desfilou na Marquês de Sapucaí vestida de iaô e com a cabeça raspada, uma imagem que marcou profundamente aquele carnaval.
A decisão da escola em manter uma de suas figuras centrais, responsável por conduzir o pavilhão, símbolo maior da agremiação, com essa caracterização em um desfile oficial, durante a homenagem a Maria Bethânia, evidenciou respeito, sensibilidade e compromisso com a narrativa proposta.
O enredo, “Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá”, desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, mergulhava na religiosidade e na relação da artista com o Candomblé. Inserido nesse contexto, o casal ocupava um setor dedicado à prática religiosa da homenageada, traduzindo em dança e simbologia dos fundamentos do axé.
A caracterização remetia diretamente aos rituais de iniciação das religiões de matriz africana, levando à avenida um símbolo potente de entrega, renovação e pertencimento.
Conforme o Abre-Alas da agremiação, o mestre-sala Raphael Rodrigues representava um ogã, sacerdote responsável pela conexão com o divino através do toque dos atabaques, enquanto Squel surgia como uma iaô, iniciada que carrega no corpo e na estética os signos sagrados de sua consagração.
Posteriormente, foi revelado que o efeito visual da cabeça raspada foi construído com o uso de uma touca. Ainda assim, a representação cumpriu plenamente seu papel, transmitindo ao público a mensagem pretendida e preservando a integridade simbólica da proposta apresentada pela escola.
A apresentação do casal emanava a vibração do axé e a ancestralidade da verde e rosa, em uma exibição marcada pela entrega, precisão e forte carga simbólica diante do público e dos jurados.
Mais do que uma exibição técnica, aquele momento reforçou o papel do casal de mestre-sala e porta-bandeira como agentes narrativos centrais do enredo, capazes de traduzir, em movimento e presença, a essência da história contada pela escola.
O episódio permanece como um dos momentos mais emblemáticos da Sapucaí recente, evidenciando que o carnaval também é espaço de afirmação cultural, religiosa e histórica, onde cada detalhe carrega significado e contribui para a construção de narrativas que atravessam gerações.