A magia do Carnaval acontece quando vemos um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira evoluir sua dança sob nossos olhos.
Quando um casal entra na avenida bem vestido, defendendo com orgulho o seu pavilhão, seja ele Primeiro, Segundo ou Terceiro Casal, entendemos que essa magia realmente nos tocou e passou a morar dentro de nós.
Esta é a vigésima quinta publicação no geral e a décima do Grupo Especial da nossa série sobre os significados das fantasias do Carnaval de 2026. O Observatório dos Casais tem a alegria de, por mais um ano, registrar e preservar a memória dessa arte que atravessa gerações e emociona o público nas arquibancadas e pela transmissão.
Em 2026, seguimos ampliando nosso olhar: além do Grupo Especial, mais uma vez incluímos também os significados das fantasias da Série Ouro, reunindo informações sobre os desfiles realizados no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. É motivo de orgulho conseguir compartilhar com o público o valor simbólico que cada fantasia carrega dentro do enredo das escolas.
Como já destacamos no ano passado, os casais do Grupo Especial vieram extremamente bem vestidos, o que evidencia o cuidado e o respeito dos carnavalescos e das agremiações com esse quesito tão representativo. Cada detalhe reforça a importância do casal dentro de uma escola de samba: são duas pessoas que empunham um pavilhão que representa uma nação, guarda histórias e carrega a identidade de uma comunidade inteira.
Veja a seguir o enredo, o quadro de casais e o significado das fantasias dos casais da Unidos de Vila Isabel, Segunda Escola a desfilar na Terça Feira de carnaval pelo Grupo Especial:
A Unidos de Vila Isabel foi a Segunda escola a desfilar na terça feira de carnaval, no dia 17 de fevereiro de 2026, com o enredo "Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África", desenvolvido pelos carnavalescos Gabriel Haddad e Leonardo Bora, numa homenagem ao multi-artista, Heitor dos Prazeres, compositor, pintor, colaborador da fundação das primeiras escolas de samba do Brasil como Deixa Falar, Estação Primeira de Mangueira e Portela.
O quadro de casais da escola de Vila era composto por três casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, sendo o primeiro formado pelo casal Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane, o segundo formado por Jackson Senhorinho e Barbara Dionísio e o terceiro formado por Kayo Figueiredo e Rayra Guarinho.
Primeiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Raphael Rodrigues e Dandara Ventapane
Nome da Fantasia: Xangô e Oxum
Criação: Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Confecção: Bruno Oliveira
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| O primeiro casal veio representando Xangô e Oxum, orixá de Heitor dos Prazeres | Foto: Eduardo Hollanda |
O que Representa:
O Primeiro Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Unidos de Vila Isabel evoca o axé de Oxum e Xangô, santos de cabeça de Heitor dos Prazeres e forças que guiaram a sua trajetória, conforme o narrado por seus familiares. Simbolizam, também, o encontro entre a Vila Isabel — pelo pavilhão desfraldado — e o homenageado, já que ambos os orixás têm fortes vínculos com a escola: Oxum, representada pela Porta-Bandeira Dandara, com saia adornada por espelhos (abebês) e pinceis, é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição, padroeira da agremiação; e Xangô, representado pelo Mestre-Sala Raphael, foi assentado no Morro dos Macacos por Tia Cirene, antiga mãe de santo da escola. Os figurinos destacam elementos associados às divindades representadas, ressignificando-os a partir do diálogo com referências específicas ao universo temático de Heitor – daí o porquê da presença dos pinceis, que simbolicamente colorem de ouro as penas e as estampas que compõem as vestes. Merece destaque o teor experimental (penas de faisão modeladas em formas que remetem às cascatas d'Oxum, minuciosamente trabalhadas com folhas de ouro; cuidadoso estudo para a adaptação das cerdas etc.) aliado ao labor de ourivesaria característico da joalheria de axé. O colorido cintilante das roupas, em bordados de canutilhos e degradês de rabos de galo, propõe uma integração entre ambas as divindades, seguindo o que nos foi orientado pelos búzios. O movimentos e bailados do casal sintetizam a essência do enredo, de modo que o pavilhão da Vila gira para que o axé seja plantado na Avenida, instaurando a força geradora de todas as formas de arte!
Segundo Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Jackson Senhorinho e Barbara Dionísio
Nome da Fantasia: Marcenaria Musical
Criação: Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Confecção: Murilo Moura
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| O segundo casal representa a influência do pai entre as profissões | Foto: Nobres Casais |
O Que Representa:
Seguindo os passos do pai, carpinteiro, Heitor passou a confeccionar móveis, molduras e instrumentos de corda, sopro e percussão, misturando ritmos e influências musicais a diferentes técnicas de marcenaria.
Não tardou e começou a adornar pianos e a fabricar os próprios cavaquinhos! O samba, nó na madeira, era moldado em objetos de notável beleza estética. Junto à sua vivência musical, a habilidade para a marcenaria se refletiu na construção de instrumentos personalizados, sendo que o ato de fabricar as peças que tocava expressava a sua agência inventiva nos rumos musicais do primeiro quartel do século XX.
Dessa forma, a carpintaria não foi apenas um ofício, mas um fundamento simbólico de sua arte e de sua presença no universo sambista. As fantasias do Segundo Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira traduzem poeticamente essa ideia, fundindo instrumentos, sonoridades e cores.
Terceiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Kayo Figueiredo e Rayra Guarinho
Nome da Fantasia: Nas Ondas da Macumba
Criação: Gabriel Haddad e Leonardo Bora
Confecção: Murilo Moura
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| O terceiro casal veio representando os álbuns que Heitor gravou em homenagem as religiões de matrizes africanas | Foto: Nobres Casais |
O Que Representa:
Heitor dos Prazeres, juntamente com o seu grupo de pastoras (“Heitor dos Prazeres e sua gente”), gravou dois álbuns dedicados à musicalidade das religiões de matrizes africanas, num gesto artístico de notável importância até a contemporaneidade. O disco “Macumba”, de 1955, fixou de vez a figura de Heitor como um Embaixador das macumbas cariocas no cenário do audiovisual brasileiro, contribuindo sobremaneira para a popularização de pontos dedicados a orixás (vide as músicas “Vem de Aruanda” e “Mamãe Oxum”, por exemplo) e para a luta contra o racismo religioso, nos termos do hoje. Depois, em 1958, lançou o LP “Macumbas e Candomblés”. As fantasias do Terceiro Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira da Unidos de Vila Isabel dialogam com as capas de ambos os discos, marcadas pela presença de estrelas e pela predominância do azul e do preto. A “macumba pop” de Heitor transformava um disco em uma ferramenta em defesa do axé. Ocupando rádios e vitrolas, ele demarcava um território simbólico e seguia na luta!


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