A magia do Carnaval acontece quando vemos um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira evoluir sua dança sob nossos olhos.
Quando um casal entra na avenida bem vestido, defendendo com orgulho o seu pavilhão, seja ele Primeiro, Segundo ou Terceiro Casal, entendemos que essa magia realmente nos tocou e passou a morar dentro de nós.
Esta é a vigésima primeira publicação no geral e a sexta do Grupo Especial da nossa série sobre os significados das fantasias do Carnaval de 2026. O Observatório dos Casais tem a alegria de, por mais um ano, registrar e preservar a memória dessa arte que atravessa gerações e emociona o público nas arquibancadas e pela transmissão.
Em 2026, seguimos ampliando nosso olhar: além do Grupo Especial, mais uma vez incluímos também os significados das fantasias da Série Ouro, reunindo informações sobre os desfiles realizados no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. É motivo de orgulho conseguir compartilhar com o público o valor simbólico que cada fantasia carrega dentro do enredo das escolas.
Como já destacamos no ano passado, os casais do Grupo Especial vieram extremamente bem vestidos, o que evidencia o cuidado e o respeito dos carnavalescos e das agremiações com esse quesito tão representativo. Cada detalhe reforça a importância do casal dentro de uma escola de samba: são duas pessoas que empunham um pavilhão que representa uma nação, guarda histórias e carrega a identidade de uma comunidade inteira.
Veja a seguir o enredo, o quadro de casais e o significado das fantasias dos casais da Beija Flor de Nilópolis, Segunda escola a desfilar na Segunda Feira de carnaval pelo Grupo Especial:
A Beija Flor de Nilópolis foia a Segunda escola a desfilar na segunda feira de carnaval, no dia 16 de fevereiro de 2026, com o enredo "Bembé", desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, numa homenagem ao Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo que fica em Santo Amaro da Purificação, na Bahia e que acontece todo o dia 13 de maio desde 1889.
O quadro de casais da escola de Nilópolis era composto por três casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, sendo o primeiro formado pelo icônico casal Claudinho e Selminha Sorriso, o segundo formado por David Sabiá e Fernanda Lhove e o terceiro formado por Hugo Almeida e Eliana Fidellys.
Primeiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Claudinho Silva e Selminha Sorriso
Nome da Fantasia: Os Ventos da Justiça de João de Obá
Criação: João Vitor Araújo
Confecção: Não Especificado no Livro A-A
| O primeiro casal veio representando os ventos de Xangô e Oyá | Foto: Alexandre Macieira |
O que Representa:
Quando a notícia da Abolição soprou pelo Recôncavo Baiano, João de Obá, nosso griô sagrado, transformou a rua em terreiro e a fé em liberdade. No coração do comércio negro de Santo Amaro da Purificação, onde a vida se levanta em feira e suor, nossa verdade não se calou. Sob as bênçãos de Oyá, senhora dos mercados, mulheres e homens que movem a cidade fizeram das trocas diárias uma economia de axé. O chão ganhou licença para ser altar.
Filho de Xangô, Obá (líder) por destino e missão, João carregava no peito a nobreza do Orixá que sustenta o alto, senhor do Trovão, que firma estruturas para que ninguém desabe. Nossa liberdade não dependeu do papel, e sim da luta de quem fez da perseguição coragem e da fé gesto político, justiça que se faz fundamento.
No mês de maio, o culto antes guardado nos terreiros se abriu às ruas em três dias de celebração.
Saveiros e canoas partiram em cortejo com cânticos e agradecimentos, levando o brilho da liberdade recém-conquistada. Das margens do Rio Subaé à praia de Itapema, o ponto mais sagrado veio em 13 de maio de 1889, quando balaios foram ofertados às Rainhas das Águas: Oxum, senhora da beleza, e Iemanjá, guardiã do mar. Desde então, o Bembé do Mercado se faz herança viva, renascimento lançado às correntezas, vida que não volta ao cativeiro.
Na avenida, o casal da Beija-Flor celebra três décadas de bailado pela nação nilopolitana, renovando esse pacto ancestral. Ambos vestem vermelho, elo sagrado entre Iansã e Xangô. Ela, com o vento da iabá, guarda o pavilhão como quem protege o território do mercado; ele, com a firmeza do orixá, dança como quem equilibra a força do mundo.
Segundo Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: David Sabiá e Fernanda Lhove
Nome da Fantasia: Salve Santo Amaro e Nossa Senhora da Purificação!
Criação: João Vitor Araújo
Confecção: Não Especificado no Livro A-A
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| O segundo casal da Beija Flor veio representando Santo Amaro e Nossa Senhora da Purificação | Foto: Tata Barreto |
O que Representa:
No compasso solene da procissão que atravessa Santo Amaro, o segundo casal surge como a materialização do sagrado que abençoa a cidade. Ele representa Santo Amaro, padroeiro e guardião do povo, símbolo de fé, devoção e humildade. Ela representa Nossa Senhora da Purificação, a mãe que acolhe, purifica e ilumina o caminho dos fiéis. Juntos, formam o par celestial que coroa a religiosidade do Recôncavo.
Embora enraizados na tradição católica, os santos padroeiros da cidade também estendem suas bênçãos ao presente que segue em direção a Itapema, reconhecendo a diversidade de caminhos da fé e abençoando aqueles que caminham rumo às águas sagradas. É o gesto de convivência espiritual que
marca Santo Amaro, onde crenças distintas dialogam e se fortalecem no respeito mútuo.
A porta-bandeira veste-se com o esplendor barroco das igrejas coloniais, trazendo nas saias o azul celestial dos afrescos e o brilho dourado das talhas que ornamentam os altares. Seu traje reflete a influência da arte sacra e da tradição católica, em diálogo com a fé popular que moldou a cidade. Cada bordado se transforma em prece, cada pedra reflete a luz divina.
O mestre-sala representa Santo Amaro em sua nobreza espiritual. Seu figurino traduz a riqueza simbólica das igrejas, com nuances douradas de quem carrega a santidade como manto. O corpo em movimento remete aos afrescos que ganham vida, como se as pinturas dos tetos e paredes das capelas descessem à avenida em forma de dança.
No desfile, o casal evoca o encontro entre o sagrado e o humano, a devoção e a arte, a fé e a beleza. Sob o brilho da purificação e a proteção do padroeiro, Santo Amaro se revela em festa, cidade onde a reza se mistura ao canto e a tradição se transforma em oferenda de amor, respeito e luz.
Terceiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Hugo Almeida e Eliane Fidellya
Nome da Fantasia: Babalorixá de Iemanjá e Yalorixá de Oxum
Criação: João Vitor Araújo
Confecção: Não Especificado no Livro A-A
O Que Representa:
No grande terreiro a beira-mar que se abre na avenida, o mestre-sala e a porta-bandeira surgem como guardiões das águas, conduzindo o emblema da fé sob a proteção das Orixás que regem o Bembé. Ela manifesta uma yalorixá de Oxum, senhora do rio, do ouro e da doçura. Ele corporifica um babalorixá de Iemanjá, mãe do mar, espelho das marés e origem da vida que brota das profundezas.
A porta-bandeira veste saias que se movem como correntezas, onde carpas douradas anunciam fertilidade e renascimento. Em uma das mãos, o adjá chama o sagrado; sobre a cabeça, o abebé reflete o axé e o mistério das águas doces. As joias que a adornam são oferendas de brilho e devoção. A cadeira de palha que repousa em suas costas simboliza o trono das mães de santo, lugar de autoridade e sabedoria ancestral.
O mestre-sala apresenta-se como um babalorixá de Iemanjá. Traz nas mãos o xirê, que convoca os espíritos e desperta o vento do Orum. Nas costas leva o trono sagrado, expressão da força que sustenta o axé. Seu figurino mistura prata e azul, cores do oceano que evocam espuma, maré e horizonte.
No caminho do mar, onde o presente do povo já se encontra preparado, são eles os guias espirituais que abrem passagem e chamam Oxum e Iemanjá para receberem as oferendas. Guiam o cortejo para o encontro com as águas, garantindo que cada pedido, agradecimento e promessa encontre destino certo.
Juntos, formam o casal das águas, que ostentam o pavilhão da Beija-Flor e anfitriões do Bembé, a grande festa onde rio e mar se abraçam. Dançam como as marés, ora suaves, ora intensas, unindo gesto e Orixá, corpo e sagrado, amor e devoção. Sob o olhar das duas mães, o pavilhão tremula e a Beija-Flor se faz oferenda.
