Significado das Fantasias dos Casais de Mestre Sala e Porta Bandeira do Império Serrano

A magia do Carnaval acontece quando vemos um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira evoluir sua dança sob nossos olhos.

Quando um casal entra na avenida bem vestido, defendendo com orgulho o seu pavilhão, seja ele Primeiro, Segundo ou Terceiro Casal, entendemos que essa magia realmente nos tocou e passou a morar dentro de nós.

Esta é a décima primeira publicação da nossa série sobre os significados das fantasias do Carnaval de 2026. O Observatório dos Casais tem a alegria de, por mais um ano, registrar e preservar a memória dessa arte que atravessa gerações e emociona o público nas arquibancadas e pela transmissão.

Em 2026, seguimos ampliando nosso olhar: além do Grupo Especial, mais uma vez incluímos também os significados das fantasias da Série Ouro, reunindo informações sobre os desfiles realizados no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. É motivo de orgulho conseguir compartilhar com o público o valor simbólico que cada fantasia carrega dentro do enredo das escolas.

Como já destacamos no ano passado, os casais da Série Ouro vieram extremamente bem vestidos, o que evidencia o cuidado e o respeito dos carnavalescos e das agremiações com esse quesito tão representativo. Cada detalhe reforça a importância do casal dentro de uma escola de samba: são duas pessoas que empunham um pavilhão que representa uma nação, guarda histórias e carrega a identidade de uma comunidade inteira.

Veja a seguir o enredo, o quadro de casais e o significado das fantasias dos casais do Império Serrano, quarta escola a desfilar na sábado de carnaval pela Série Ouro:

O Império Serrano foi a quarta escola a desfilar no dia 14 de fevereiro de 2026, teve como enredo "Ponciá Evaristo, Flor do Mulungu", desenvolvido pelo carnavalesco Renato Esteves e fazia uma homenagem a Conceição Evaristo, professora, linguista e escritora brasileira. 

O quadro de casais da escola de Madureira contava com três casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, sendo o primeiro formado por Matheus Machado e Maura Luiza, o segundo formado por Rômulo Diniz e Livya Bergman e o terceiro casal formado por Paulo Carvalho e Isabella Latini.

Primeiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Matheus Machado e Maura Luiza
Nome da Fantasia: O Mulungu ancestral e a flor do Mulungu
Criação: Renato Esteves
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas

O primeiro casal do império serrano vieram representando o Malungu Ancestral e a Flor do Mulungu | Foto: Alexandre Macieira

O que representa:
Mestre-Sala
O Mulungu Ancestral: árvore sagrada que simboliza a memória profunda, a raiz africana e o tempo longo da diáspora. O Mulungu é tronco, é chão, é abrigo. É a África que junta os seus em seus galhos, sustentando vidas atravessadas pela violência da escravização, mas também pela permanência dos saberes ancestrais. Como árvore medicinal, o mulungu carrega a sabedoria do cuidado e da estratégia. Seu uso tradicional, que acalma, protege e silencia a opressão, remete às  tecnologias de sobrevivência criadas pelos povos escravizados. É a ciência ancestral que opera na sutileza, no conhecimento do tempo certo e da resistência invisível. O Mestre-Sala, ao personificar esse tronco ancestral, guarda o axé, sustenta o ritmo e protege o caminho por onde a história vai passar. Assim como suas funções culturais de cortejo e proteção ao seu pavilhão. 

Em cena, o Mulungu Ancestral é o guardião da memória, aquele que enraíza o desfile no tempo do ontem, assegurando que o futuro não se construa sem lembrar. Ele representa a força silenciosa que sustenta o povo, a estabilidade que permite o florescimento, o corpo que dança sem se romper, mesmo atravessado por séculos de violência estrutural.

Porta-Bandeira
Flor do Mulungu, síntese da potência feminina negra e figura central da escrevivência-enredo. A flor é estado de graça, é beleza que nasce da resistência, é a mulher negra que verte em leite a seiva que dá a vida. É criança, adulta e anciã ao mesmo tempo, flor do ontem-hoje amanhã.

A Flor do Mulungu enxerga o tudo e o nada. Ela carrega o axé da continuidade, nesse caso da sua comunidade, seu bem maior, o seu pavilhão. Flores de Mulungu são porta-vozes de mulheres que transformam dor em linguagem, memória escrita, e vivência em pensamento. A flor não morre: ela se renova, leva consigo a potência da vida e se torna força motriz de um povo que insiste em existir, amar e sonhar. Ao conduzir o pavilhão, a Flor do Mulungu afirma que a palavra escrita nasce da vida e que a vida, quando narrada por mulheres negras, transforma o mundo.


Segundo Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Rômulo Diniz e Livya Bergman
Nome da Fantasia: Renato Esteves 
Criação: Negro-Estela e Menina-Lua
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas

O segundo casal vieram representando o Negro Estrela e a Menina Lua | Foto: Tata Barreto

O que representa:
Mestre-Sala: Negro-Estrela representa a imagem poética criada por Conceição Evaristo no poema homônimo, escrito em homenagem a seu companheiro de vida, Osvaldo, pai de Ainá. A partir dessa experiência íntima, o Negro-Estrela se expande no enredo como símbolo coletivo: homens negros que, mesmo atravessados pela violência do mundo, seguem brilhando na memória, no afeto e na ancestralidade. O Negro Estrela é aquele que não se apaga com a morte. Sua presença permanece como luz-guia, orientando caminhos, protegendo os que ficam e sustentando a continuidade da vida. No desfile, o Mestre-Sala corporifica essa estrela em movimento, dançando como quem vigia, cuida e abre passagem. Seu gesto ritual afirma que os que partiram seguem vivos na memória coletiva e que o amor também se transforma em legado.

Porta-Bandeira: A Porta-Bandeira representa a Menina-Lua, imagem recorrente e potente na obra de Conceição Evaristo, associada às personagens femininas negras que atravessam o tempo carregando memória, dor e resistência. A Menina-Lua dialoga diretamente com o poema “A noite não adormece nos olhos das mulheres”, em que a autora evoca a lua fêmea, vigilante, como símbolo da memória coletiva das mulheres negras. As Meninas-Luas são aquelas que aprendem com as mais velhas, que herdaram o choro, mas também a força. São mulheres que afastam os cálices de lágrimas, que transformam dor em permanência e sofrimento em luta. A lua, aqui, não dorme: observa, guarda e reflete. É ancestral e contemporânea ao mesmo tempo.


Terceiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Paulo Carvalho e Isabela Latini 
Nome da Fantasia: Contas Mágicas do Cangerê
Criação: Renato Esteves
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas
O terceiro casal representava as Contas Mágicas do Cangerê | Foto: Tata Barreto
O que representa:
Mestre-Sala
O Mestre-Sala, ao portar simbolicamente essas contas, assume a função de guardião do rito. Seu bailado protege o sagrado, abre passagem para o invisível e zela pelo axé que atravessa o desfile. Ele representa o movimento circular do canjerê, o giro que ativa a memória coletiva e mantém vivos os pactos ancestrais.

Porta-Bandeira
A Porta-Bandeira corporifica a menina-flor em travessia. Em seu corpo, as contas se tornam ornamento e linguagem. Seu giro traduz o aprendizado sensível que nasce da brincadeira e se transforma em consciência. É nela que se manifesta o impasse do arco-íris, quando o céu une as margens e a travessia exige coragem. O medo de passar sob Angorô, a cobra celeste, faz emergir a reflexão sobre gênero: seria a vida mais fácil se fosse menino? Essa dúvida marca a formação da subjetividade feminina negra, atravessada desde cedo pelas desigualdades impostas ao corpo da mulher.

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