A magia do Carnaval acontece quando vemos um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira evoluir sua dança sob nossos olhos.
Quando um casal entra na avenida bem vestido, defendendo com orgulho o seu pavilhão, seja ele Primeiro, Segundo ou Terceiro Casal, entendemos que essa magia realmente nos tocou e passou a morar dentro de nós.
Esta é a décima quinta publicação da nossa série sobre os significados das fantasias do Carnaval de 2026. O Observatório dos Casais tem a alegria de, por mais um ano, registrar e preservar a memória dessa arte que atravessa gerações e emociona o público nas arquibancadas e pela transmissão.
Em 2026, seguimos ampliando nosso olhar: além do Grupo Especial, mais uma vez incluímos também os significados das fantasias da Série Ouro, reunindo informações sobre os desfiles realizados no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. É motivo de orgulho conseguir compartilhar com o público o valor simbólico que cada fantasia carrega dentro do enredo das escolas.
Como já destacamos no ano passado, os casais da Série Ouro vieram extremamente bem vestidos, o que evidencia o cuidado e o respeito dos carnavalescos e das agremiações com esse quesito tão representativo. Cada detalhe reforça a importância do casal dentro de uma escola de samba: são duas pessoas que empunham um pavilhão que representa uma nação, guarda histórias e carrega a identidade de uma comunidade inteira.
Veja a seguir o enredo, o quadro de casais e o significado das fantasias dos casais do Unidos da Ponte, oitava e última escola a desfilar na sábado de carnaval pela Série Ouro:
A Unidos da Ponte foi a oitava e última escola a desfilar no dia 14 de fevereiro de 2026, responsável por fechar os desfiles da Série Ouro e teve como enredo "Tamborzão – O Rio é Baile! O Poder é Black!", desenvolvido pelo carnavalesco Nicolas Gonçalves e que falava sobre a influência do baile funk nas periferias do Rio de Janeiro.
O quadro de casais da escola de São João de Meriti contava com dois casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, sendo o primeiro formado por Thiaguinho Mendonça e Jéssica Ferreira e o segundo formado por Fábio Rodrigues e Verônica Moura.
Primeiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Thiaguinho Mendonça e Jéssica Ferreira
Nome da Fantasia: A batida e a realeza que nos unem
Criação: Nicolas Gonçalves
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas
O que representa:
Ao falarmos em música negra, nos unimos pelo som das batidas do coração que pulsa forte nas marcações e nos conecta ao princípio vital da musicalidade ancestral. Os bailes negros no Rio de Janeiro ecoam “as batidas do coração suburbano”, título de uma reportagem sobre o funk publicada em 1989 no Caderno de Comportamento do Jornal da Tribuna. A batida do coração no ritmo dos tambores confere o status de realeza aos frequentadores dos bailes. São as majestades do black, do funk, do samba, que se unem pela batida, representadas no figurino de um rei e uma rainha africanos com elementos referentes aos bailes cariocas. O casal simboliza essa conexão entre o passado, o presente e o futuro pela música negra, e é protegido pelo conjunto de guardiões da batida real.
Segundo Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Fábio Rodrigues e Verônica Moura
Nome da Fantasia: Liberdade na Gaiola
Criação: Nicolas Gonçalves
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas
O que representa:
A palavra “gaiola” está presente na história do funk em movimentos que tiveram projeção nacional, como o grupo “Gaiola das Popozudas”, liderado por Valesca Popozuda nos anos 2000, e o “Baile da Gaiola”, fenômeno no Complexo da Penha e idealizado pelo DJ Rennan da Penha nos anos 2010.
A fantasia do segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira dialoga diretamente com esse imaginário da gaiola, ressignificando seus elementos a partir de uma leitura poética e libertária. As estruturas metálicas e correntes (símbolos do aprisionamento histórico), na fantasia surgem soltas e fluidas, remetendo à estética urbana dos bailes funk, à liberdade, ao movimento e à autonomia dos corpos negros periféricos. A base colorida e os alto-falantes representam os paredões de som e a felicidade vivenciada nos bailes. Os búzios reforçam a ancestralidade africana e espiritual da musicalidade negra, conectando o funk às suas raízes rítmicas e religiosas, numa linha contínua que atravessa o tempo, do tambor ancestral ao batidão contemporâneo.
Assim, o casal representa a união entre tradição e modernidade, conduzindo o pavilhão como guardiões de uma cultura que resiste, se reinventa e ocupa o centro da cena.