A magia do Carnaval acontece quando vemos um casal de Mestre Sala e Porta Bandeira evoluir sua dança sob nossos olhos.
Quando um casal entra na avenida bem vestido, defendendo com orgulho o seu pavilhão, seja ele Primeiro, Segundo ou Terceiro Casal, entendemos que essa magia realmente nos tocou e passou a morar dentro de nós.
Esta é a quinta publicação da nossa série sobre os significados das fantasias do Carnaval de 2026. O Observatório dos Casais tem a alegria de, por mais um ano, registrar e preservar a memória dessa arte que atravessa gerações e emociona o público nas arquibancadas e pela transmissão.
Em 2026, seguimos ampliando nosso olhar: além do Grupo Especial, mais uma vez incluímos também os significados das fantasias da Série Ouro, reunindo informações sobre os desfiles realizados no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. É motivo de orgulho conseguir compartilhar com o público o valor simbólico que cada fantasia carrega dentro do enredo das escolas.
Como já destacamos no ano passado, os casais da Série Ouro vieram extremamente bem vestidos, o que evidencia o cuidado e o respeito dos carnavalescos e das agremiações com esse quesito tão representativo. Cada detalhe reforça a importância do casal dentro de uma escola de samba: são duas pessoas que empunham um pavilhão que representa uma nação, guarda histórias e carrega a identidade de uma comunidade inteira.
Veja a seguir o enredo, o quadro de casais e o significado das fantasias dos casais da Unidos de Padre Miguel, quinta escola a desfilar na sexta feira de carnaval pela Série Ouro:
A Unidos de Padre Miguel foi a quinta escola a desfilar no dia 13 de fevereiro de 2026, teve como enredo Kunhã-Eté: O Sopro Sagrado da Jurema, desenvolvido pelo carnavalesco Lucas Milato e narrava a história de Clara Camarão, indígena potiguara símbolo de coragem e resistência contra a invasão holandesa no século XVII. O quadro de casais da escola de Padre Miguel contava com dois casais de Mestre Sala e Porta Bandeira, sendo o primeiro formado por Marcinho Siqueira e Cris Caldas e o segundo formado por Emerson Faustino e Joana Falcão.
Primeiro Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Marcinho Siqueira e Cris Caldas
Nome da Fantasia: Sangue Potiguara
Criação: Lucas Milato
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas
O que representa: O primeiro casal de mestre-sala e porta-bandeira da Unidos de Padre Miguel encarna o sangue potiguara, vermelho vivo como o urucum que tinge corpos e histórias, seiva vital que liga a ancestralidade às batalhas e à resistência. Ao vestir-se de vermelho-sangue-urucum, o corpo indígena assume poder, beleza e proteção mágica, reafirmando sua ligação com a terra e com a Jurema Sagrada.
O vermelho que domina o casal é sangue que significa vitalidade e continuidade: o que escorreu para que a cultura sobrevivesse e se transformasse em canto. A dança do casal ressignifica essa herança em forma de celebração, transformando o que foi luta e dor em beleza e orgulho.
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| A fantasia do primeiro casal representa o sangue potiguará | Foto: Alex Ferro |
Por fim, o mestre-sala, guerreiro, carrega o movimento da guerra e da dança: seus braços abertos, a capa que se espalha como asas tingidas de urucum e a cabeça ornada reafirmam o orgulho guerreiro e a espiritualidade herdada da ancestralidade.
Já a porta-bandeira surge vestida como uma deusa guerreira, com saia volumosa em camadas que lembram o escorrer do urucum e do sangue ancestral sobre a mata, transformando dor em força e rito. Seu torso adornado traduz a realeza de Clara Camarão e das mulheres potiguaras que, mesmo marcadas pela colonização, mantiveram vivo o legado de seu povo.
Guardiões do Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira
Nome da Fantasia: Raízes Ancestrais
Criação: Lucas Milato
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas
O Que Significa:
As raízes ancestrais da cultura originária do Povo Potiguara são retratadas pelos guardiões do casal de mestre-sala e porta-bandeira, evocando a presença da ancestralidade indígena e a força vital que percorre o sangue de Clara Camarão. Os guardiões protegem o casal como raízes sagradas que evocam a força originária, o poder dos Povos Originários e a seiva vital que alimenta o sangue-urucum do casal.
Segundo Casal de Mestre Sala e Porta Bandeira: Emerson Faustino e Joana Falcão
Nome da Fantasia: O Sagrado da Jurema
Criação: Lucas Milato
Confecção: Não Específicado no Livro Abre Alas
O que representa:
O segundo casal de mestre-sala e porta-bandeira surge quando a narrativa atravessa a fronteira entre a história e o mito carnavalizado, adentrando o território sagrado e encantado da Jurema. É nesse ponto do desfile que Clara Camarão, após sua luta na terra e sua presença nas batalhas históricas, deixa de ser apenas personagem histórica e se transforma em entidade encantada, guardiã espiritual que habita a memória e o imaginário de seu povo. A Juremá, como apontam as tradições indígenas, é a cidade invisível onde os ancestrais e encantados se reúnem para proteger os vivos, espaço onde guerreiras e guerreiros são acolhidos e transmutados em força espiritual após a morte. A fantasia deste casal materializa o território sagrado da Jurema, os sonhos e revelações que guiam aqueles que adentram o reino encantado.
Ao proteger o pavilhão, o casal reverencia a escola e abre passagem para o mistério. Sua dança remete às visões e revelações que se abrem no território da Jurema, momento em que o espírito se desprende para encontrar os encantados. É nesse limiar que Clara, já heroína e mártir, é recebida pelos mestres e mestras do reino encantado, tornando-se parte dessa cosmologia viva.
Assim, este segundo casal destaca novamente um ponto importante na narrativa do desfile: após a luta histórica e o silêncio imposto pelas páginas rasgadas da história oficial, Clara renasce no espaço sagrado da Jurema, onde o passado é preservado e transformado em força.
Por fim, o mestre-sala surge em traje verdejante. Seus gestos ágeis representam o guia que conduz pelos caminhos invisíveis, o guardião das portas do encantamento. Já a porta-bandeira, com sua grande saia formada por camadas verdes que lembram folhas sagradas, dança como se fosse a própria mata viva. O verde simboliza a vitalidade da floresta encantada e a cura espiritual que a Jurema oferece. Sobre seu corpo, detalhes que evocam folhas sagradas reforçam a força de iniciação e de ligação com as entidades
que ali habitam.

