Quem foi Dalmo José, criador da Ala de Casais de Mestre Sala e Porta Bandeira

Eu estava no meu período de férias no Observatório e, inicialmente, pensei em deixar essa história para depois, para o retorno das minhas atividades no começo de janeiro. Tinha planejado um conteúdo para esse período, já que, a partir do dia 4 de janeiro, volto com tudo para os ensaios de rua até os desfiles de 2026. No entanto, ao pesquisar sobre os grandes casais do carnaval, encontrei algo tão fascinante que não pude deixar passar. Mesmo no recesso, estou aqui, escrevendo.

Estava buscando informações sobre os últimos desfiles de casais famosos, como Chiquinho e Maria Helena, Vilma Nascimento, Delegado e Mocinha em forma de video. Mas, ao procurar pelo último desfile de Delegado e Mocinha, deparei-me com uma imagem impressionante: uma ala de casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira no desfile da Estação Primeira de Mangueira, em 1984. Isso me pegou de surpresa, afinal, foi há 40 anos!

Fiquei me perguntando: quem teria introduzido essa ala na Mangueira? Uma inovação que defendo até hoje e que acredito que todas as escolas do Grupo Especial deveriam adotar. A primeira coisa que fiz foi compilar esse desfile e publicar no Instagram do Observatório. Menos de duas horas depois, recebi o nome do responsável por essa ala: Dalmo José. Claro, fiquei ainda mais curiosa e fui atrás para descobrir mais sobre essa figura.

Mestre Dalmo, grande responsavel pela introdução da Alas de Casais no Carnaval | Foto: Autor Desconhecido
Dalmo José, se estivesse vivo, teria cerca de 82 anos, já que nasceu em 1943, ou talvez 1942; isso ainda é incerto. Ele cresceu no morro da Mangueira e, ao longo de sua trajetória, aprendeu com os maiores nomes da história do samba, como Tia Raimunda, a primeira Porta-Bandeira da escola, que fez história entre 1932 e 1935. Além disso, Dalmo também teve a influência de mestres como Neide, Maçu e Delegado, que ajudaram a moldar sua visão técnica da dança, sempre com respeito e elegância.

Depois de tanto aprendizado, Dalmo decidiu criar a ala de Casais de Mestre-Sala e Porta-Bandeira, com o intuito de salvar os jovens da criminalidade. Foi um grande dançarino da casa Skala Rio, localizada no Leblon, Zona Sul do Rio de Janeiro, e era conhecido pela dedicação em aprender e sua pontualidade. O grande mestre também aprendeu com Tia Alice, lendária atleta e conhecedora de danças afro, e transformou muitas vidas. Foi ele quem criou a Ala Maculelê na Estação Primeira de Mangueira, um grande sucesso entre as décadas de 1960 e 1970, levando o nome da escola ao mundo.

Dalmo então passou seu conhecimento adiante, formando grandes Mestres-Sala, como Marquinhos, que dançou por anos ao lado de Giovanna Justo, tanto na Mangueira quanto em outras escolas como Unidos da Tijuca, Unidos de Vila Isabel e Unidos do Viradouro. Em uma entrevista de 2013 ao jornal O Globo, Marquinhos contou:

— Fomos alunos da turma do Dalmo José (antigo Mestre-Sala da verde e rosa). Ele fazia um círculo e colocava todos para dançar. Depois, vinha com uma varinha na mão corrigindo os movimentos.

Dalmo também foi um grande ativista pelos direitos LGBTQIAPN+, além de valorizar a arte da comunidade, introduzindo artistas negros da periferia em seus shows. Denunciava frequentemente a violência policial, que, de maneira injusta, o prendeu no fim de sua vida. Tinha a grande vontade de abrir uma biblioteca com obras de autores negros, para incentivar a leitura entre as crianças, mas, infelizmente, não teve tempo.

Essa história me deixou sem palavras. O quanto é rico ver como essas tradições e ensinamentos continuam a ecoar nas novas gerações, mantendo viva a alma do carnaval!
Postagem Anterior Próxima Postagem